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Você SA, janeiro 2001


Profissão: fazer o bem

O crescimento do terceiro setor trouxe na carona o empreendedorismo social. É um trabalho que exige suar a camiseta, mas pode garantir uma bela carreira

Por Rodrigo Vieira da Cunha

Sílvia Carvalho, do Crecheplan: ensino inovador faz crianças de baixa renda ler até dois anos antes da média.

Mestre em psicologia da educação, Sílvia Maria Pereira de Carvalho, 51 anos, nasceu numa família de classe média de Itajubá, no sul do Estado de Minas Gerais. Por sete anos, ganhou um salário razoável como professora de escola particular. Mas nunca se sentiu confortável sabendo que os alunos da periferia não recebiam a mesma educação que ela teve e proporcionou aos seus três filhos. "Tive uma crise interior e resolvi me dedicar ao serviço social", diz Sílvia. Foi a senha para conhecer de perto aquilo que até hoje ela vem trabalhando para mudar: o precário atendimento das creches da rede pública. Em 1986, sensibilizada com o que viu, Sílvia convenceu algumas pessoas a ajudá-la e fundou a Crecheplan, uma organização não-governamental. Hoje, a Crecheplan oferece uma educação de maior qualidade às crianças de baixa renda. Sílvia atua onde os braços do governo não conseguem chegar. Ela é uma empreendedora social.

Empreendedores sociais são as pessoas físicas que trazem inovações para o terceiro setor, mais conhecido pela atuação das ONGs. "Assim como um empreendedor de negócios, os empreendedores sociais são visionários, criativos, determinados e, principalmente, inovadores", diz William Drayton, fundador da Ashoka, uma entidade formadora de empreendedores sociais (ver entrevista na página 60). "A diferença é que usam essas qualidades para apresentar novas soluções para problemas sociais." É um trabalho de formiguinha: silencioso, cotidiano e, na grande maioria das vezes, que nada exige em troca, além de garantir melhores condições de vida às pessoas de baixa renda ou abandonadas pelo Estado. Sílvia faz exatamente isso, por meio da Crecheplan. Até hoje, com a ajuda financeira de institutos sociais, a ONG já atendeu 8 183 crianças e formou 857 profissionais em mais de 100 creches e centros de juventude. Nas creches em que se usa a metodologia de ensino desenvolvida por Sílvia e sua equipe, algumas crianças conseguem ler com apenas 5 anos de idade, algo impensável na rede pública de ensino.

No início, como qualquer pessoa que funda uma empresa, os empreendedores sociais trabalham em lugares apertados, e com muito amor à camiseta. Sílvia, da Crecheplan, precisou usar o escritório do marido, um arquiteto, para colocar sua idéia em prática. Agora, quase 15 anos depois, ela aplica nas creches 600 000 reais, obtidos com doações. Graças à sua metodologia inovadora de ensino desenvolvida nas creches da rede pública, ela se tornou consultora do referencial de ensino do Ministério da Educação e Cultura.

Hoje, cada vez menos o poder público consegue oferecer saúde, alimentação, educação e boas condições de vida para a população. O Estado deixa a desejar quando se trata de aplicar com igualdade os impostos que arrecada. Nesse vácuo é que o terceiro setor se torna importante e cada vez mais visível. "O terceiro setor cresce onde o Estado falha", diz Cláudia Costin, ex-ministra da Administração Federal e Reforma do Estado e atual diretora da unidade de setor público e governamental para América Latina e Caribe do Banco Mundial. "O governo tem de lidar com regulamentação, execução e policiamento. A assistência social exige um tratamento específico, por causa da desigualdade dos grupos. Esse trabalho é para quem tem mais agilidade, como as ONGs."

Essa peculiaridade já foi percebida pelo Banco Mundial, que transformou a consulta às ONGs em prática obrigatória antes da execução de qualquer programa social. Não é para menos: afinal, o crescimento do terceiro setor é avassalador e dá sinal de que veio para ficar. Embora não se tenham estatísticas confiáveis, estima-se que exista algo entre 6 000 e 30 000 ONGs nacionais espalhadas pelos países em desenvolvimento (no Brasil a estimativa varia entre 250 000 e 400 000!). De 1970 a 1985, o total de ajuda distribuída por essas organizações aumentou dez vezes. Em 1992, ONGs do mundo inteiro disponibilizaram 7,6 bilhões de dólares para programas sociais. Hoje, segundo dados disponíveis no site do Banco Mundial, cerca de 15% da ajuda internacional para países em desenvolvimento vem de ONGs.

Fábio rosa, do Ideaas: energias alternativas aumentam o dia e a renda de 200 000 famílias do campo

Em 1995, o Instituto Superior de Estudos da Religião e a Universidade Johns Hopkins fizeram uma pesquisa com 1 200 famílias no Brasil e contabilizaram que 153 reais per capita são doados anualmente no Brasil. Desse total, 100 reais vêm de empresas e o restante é doado informalmente, na porta da igreja ou no semáforo, por exemplo. Todo esse dinheiro, cerca de 24 bilhões de reais, precisa ser captado e administrado por alguém, para ser melhor aplicado no desenvolvimento social. É cada vez maior o número de profissionais atuando nessa área. Eles estão sendo formados por cursos de gerenciamento e captação de recursos para o terceiro setor, como os oferecidos pela Fundação Getúlio Vargas e pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo.

Ao mesmo tempo em que o setor se profissionaliza, estão sendo fortalecidos conceitos e expressões como a do empreendedorismo social. Embora esse termo tenha sido cunhado por William Drayton em 1980, só agora ele começa a soar familiar no Brasil. O trabalho de alguns empreendedores sociais começa a ganhar a mídia e o apoio do Estado, que já percebeu que a atuação do terceiro setor não pode ser vista como conflituosa. Não. São complementares, como feijão e arroz. Vejamos um exemplo prático e conhecido. É o do carioca Rodrigo Baggio, 30 anos, que coordena o Comitê de Democratização da Informática (CDI), uma rede de escolas de computação espalhadas por favelas do Rio de Janeiro e em mais de uma dezena de estados brasileiros. Pop star do meio, Baggio já foi escolhido como provável líder latino-americano do século 21 pela revista americana Time. Em abril passado, o CDI recebeu 945 000 reais do Fundo Social, criado com base nos lucros do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social. Nos últimos três anos, o BNDES financiou 128 milhões de reais para 81 projetos de apoio a crianças e adolescentes de instituições públicas e privadas.

Essa ajuda do BNDES deixa clara a opção do Estado de contar com a ajuda do terceiro setor para resolver problemas de assistência social. Mas a iniciativa privada é que está dando um eficiente sinal de dinamismo e força nessa área. Hoje, no Brasil, há mais de 100 empresas que publicam balanços sociais, de acordo com o Guia Exame de Boa Cidadania Corporativa, editado pela revista Exame. Também há cada vez mais dinheiro disponível para empreendimentos do terceiro setor. Pegue-se o exemplo da Ashoka, um modelo lapidar de atuação na área social. De 1981 a 1999, já foram selecionados mais de 1 000 fellows (como são chamados os membros da entidade) para tocar seus projetos em 38 países. No Brasil, a Ashoka forma entre 15 e 20 empreendedores sociais por ano, escolhidos como fellows após uma criteriosa seleção. (No país inteiro, são cerca de 750 propostas anuais de empreendimentos sociais oferecidos a diversas entidades, mas apenas uma ínfima parte apresenta alguma inovação.) Quem é selecionado pela Ashoka ganha uma bolsa, cujo valor varia de país para país. Os fellows brasileiros recebem 90 000 reais por três anos. É uma maneira eficaz de garantir que o empreendedor se dedique de corpo e alma ao projeto. "O empreendedor social pode gerar mudanças de paradigma social com um pequeno capital de risco", diz a socióloga Anamaria Schindler, diretora no Brasil do Centro para o Empreendedorismo Social da Ashoka em parceria com a consultoria McKinsey. "Essa pessoa pode gerar um impacto até mundial."

O gaúcho Fábio Rosa, um dos 220 fellows brasileiros da Ashoka, é um caso de alguém financiado com pequeno capital de risco que está gerando impacto mundial. A idéia de Fábio é uma daquelas que evocam a típica pergunta: por que ninguém pensou nisso antes? O que ele faz é prover fontes de energia para comunidades afastadas, dos grotões do Brasil onde nem energia elétrica chega. São cerca de 25 milhões de brasileiros que vivem hoje como se estivessem no século 19. Seus dias produtivos são mais curtos (acabam com o pôr-do-sol), e seu cotidiano, sem confortos básicos como geladeira ou até mesmo rádio, em plena era da Internet. Isso porque custa muito caro - algo entre 3 000 e 4 000 reais - puxar uma linha de transmissão de energia para apenas uma propriedade. Fábio já iluminou a vida de 800 000 pessoas com energia solar. Ele rateia o custo de painéis solares entre as comunidades afastadas, substituindo o custo de energias alternativas e poluentes, como baterias de carros, querosene, velas ou pilhas comuns. O dinheiro pago pelos beneficiados vai para um fundo do Instituto para o Desenvolvimento de Energias Alternativas e Auto-Sustentabilidade (Ideaas). Em cinco anos, o investimento já deve gerar lucros. O dinheiro que segue entrando financia a instalação de mais painéis solares.

Fábio identificou um problema em 1983, quando chegou à cidade de Palmares do Sul, a cerca de 70 quilômetros de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, para trabalhar como engenheiro agrônomo. Ele percebeu que a economia estava debilitada e que as pessoas não viam perspectiva alguma para trabalhar sem luz no campo. Pelo contrário, saíam em direção à capital gaúcha para inchar ainda mais as favelas. Então, resolveu arregaçar as mangas para ajudar a mudar a situação. Fábio criou modelos de instalação de energia que otimizaram o uso dos geradores, com menos potência e que evitam desperdícios. E também teve a idéia de instalar os painéis solares. Em quatro anos, os resultados são visíveis. De cada três famílias atendidas, uma já havia voltado ao campo graças às novas perspectivas. Com energia na propriedade rural, podiam colocar cercas elétricas (mais baratas do que cercas convencionais, já que consomem menos arame e madeira) e manejar a produção de leite, por exemplo. Podiam ter geladeiras para conservar o leite e depois negociá-lo. Surgiu também a possibilidade de novos trabalhos, como preparação de doces em conserva, já que o dia fica mais longo graças à luz artificial. "Se muitas pessoas resolvem voltar ao campo e trabalhar, o resultado é um aumento até na cadeia de produção de eletrodomésticos", diz Fábio. "Cerca de 80% dos beneficiados com a instalação de energia compram televisores em até um ano."

Karen Worcman, do Museu da Pessoa: projetos nas empresas para contar a história na versão de bocas anônimas.

Seu trabalho serve hoje de modelo para projetos de financiamento do Banco Mundial. No ano passado, ele deu uma palestra no seminário Divisão Digital, promovido pela Fundação Bill Gates. É uma amostra de como os empreendedores sociais podem colher os louros do pioneirismo e da inovação. Foi assim com Karen Worcman, a exemplo do engenheiro agrônomo gaúcho, também uma fellow da Ashoka. Carioca de 38 anos, Karen criou em 1992 o Museu da Pessoa (www.museudapessoa.com.br). Trata-se de uma maneira diferente de contar a história, a partir de experiências pessoais relatadas por gente comum. Nada de celebridades ou ídolos. O acervo do museu é enriquecido todos os dias por qualquer pessoa que queira contar sua vida. Basta ir até a casa na Vila Madalena, Zona Oeste de São Paulo, e dar o seu depoimento num estúdio preparado para isso. Ou então fazê-lo pela Internet.

No início, não foi fácil convencer as pessoas de que valia a pena investir na sua idéia. Para viabilizá-la, Karen foi obrigada a buscar dinheiro. Como? Prestando serviços para empresas, entre elas o Serviço Social do Comércio (Sesc), de São Paulo, e o São Paulo Futebol Clube. Para montar a história, Karen e sua equipe colheram depoimentos de pessoas que fizeram parte dessas instituições. O trabalho no Sesc rendeu livros e um CD-ROM. A pesquisa sobre o São Paulo Futebol Clube pode ser apreciada no museu do clube, no estádio do Morumbi. À primeira vista, os ganhos sociais do empreendimento não são muito transparentes. Mas basta ver as reações dos depoentes para perceber seu alcance. "As pessoas sentem que contribuem com a história depois de um depoimento", diz Karen. "Muitas delas nos telefonam para agradecer, pois se sentem valorizadas e inseridas na sociedade."

O.k., o benefício social dos projetos é inquestionável, mas é impossível não perguntar do que os empreendedores sociais vivem. Não imagine que pela relevância e nobreza do ofício eles ganhem remuneração estratosférica. Seus vencimentos são bem inferiores aos pagos pelas empresas. Nos Estados Unidos, trocar um cargo do mundo dos negócios pela área social significa ganhar 10% a menos. Trabalhar no terceiro setor, é algo que toca mais ao coração do que ao bolso. "Nós trabalhamos por missão, e não por comissão", diz Célia Cruz, coordenadora do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis), que abandonou uma carreira promissora na IBM para se dedicar a uma causa social. Além do trabalho no Idis, ela tem uma consultoria no setor. Célia avalia que ganha um bom salário. Karen, do Museu da Pessoa, também não reclama. A prestadora de serviços que mantém o museu fatura 2 milhões de reais por ano, revertidos para a entidade. Fábio, do Ideaas, recebe por mês até 6 000 reais por seu trabalho no fundo e como consultor pelo mundo afora. Sílvia, da Crecheplan, diz que ganha um salário comparável a uma média gerência de empresa privada, algo entre 6 000 e 8 000 reais.

PRÊMIO EMPREENDEDOR SOCIAL

Neste ano, pela primeira vez, a Ashoka realizou o concurso de empreendedorismo social no Brasil. Em dezembro passado, foram escolhidos cinco vencedores em idéias inovadoras e os três melhores planos de negócios, de um total de 177 inscritos. Desses, 80 idéias passaram para a segunda fase e receberam durante seis meses consultoria voluntária da McKinsey, com quem a Ashoka tem uma associação no Brasil. Depois, foram escolhidos dez finalistas dos planos de negócios. "Mesmo quem não foi finalista teve algum aprendizado na elaboração dos planos de negócios", diz Vivianne Naigeborin, coordenadora da Ashoka. "É mais uma maneira que encontramos para formar e selecionar empreendedores sociais."

Cinco idéias inovadoras
  • Themis
  • Projeto Quixote
  • Ideaas
  • Fundação Brasil Cidadão
  • Instituto Amarati
  • Três planos de negócios:
  • Projeto Quixote
  • História do Presente
  • Sociedade Executivo Global

  • PERFIL DO EMPREENDEDOR SOCIAL

    • Idéia inovadora
    • Criatividade
    • Qualidade empreendedora
    • Projeto com impacto social
    • Fibra ética (personalidade confiável)

    O captalista social

    William Drayton financia projetos com capital de risco. Ele ajuda a mudar para melhor a vida em 38 países

    Por Rodrigo Vieira da Cunha

    William Drayton, fundador da Ashoka: "A carreira de empreendedorismo social veio para ficar"

    No século 3 a.C., no sul da Ásia, viveu um líder criativo, agente de desenvolvimento social e econômico, com o estranho nome de Ashoka. Ele foi o responsável pela unificação da Índia e é reconhecido como um dos primeiros empreendedores sociais de que se tem notícia. O americano William Drayton, 57 anos, ex-consultor da McKinsey & Co., inspirou-se nessa história para batizar uma entidade internacional de capital de risco para empreendimentos sociais, que já atua em 38 países. Da matriz da Ashoka, em Arlington, Virgínia, Estados Unidos, Drayton explica o que é ser empreendedor social:

    O que é necessário para ser um empreendedor social?
    Criatividade para novas idéias e para resolver problemas. Não basta encorajar uma empresa a se comportar melhor socialmente. Isso não é novidade, pois já existe o processo. A pessoa deve ter uma visão e acreditar nela para mudar a maneira como a sociedade está organizada. Como fazê-la acontecer? Como espalhá-la? O empreendedor social deve ser um visionário e ao mesmo tempo um engenheiro prático. E há uma outra característica importante: a fibra ética. O empreendedor social deve ser confiável. O mundo já tem muitos líderes que não o são.

    Empreendedores sociais sempre existiram?
    Mahatma Gandhi e Florence Nightingale foram empreendedores sociais. Há duas décadas eles eram muito raros. Mas agora há muitos empreendedores sociais surgindo. O mundo está mais democrático, e essas pessoas são o último grito dessa revolução. É gente capacitada para pôr ordem no dinamismo da sociedade.

    Os empreendedores sociais podem crescer onde o Estado falha, tomar o seu lugar?
    Eles podem fortalecer o governo ao mostrar como fazer melhor determinadas coisas. Nós veremos um governo mais crítico e ativo como resultado de uma atuação vibrante da sociedade, liderada por empreendedores sociais.

    O senhor acha que eles chegaram para ficar?
    Sem dúvida. A menos que a sociedade pare de se reciclar, vamos precisar cada vez mais de empreendedores sociais. Estamos assistindo à decolagem de uma profissão que começou a emergir há duas décadas. Ainda estamos construindo essa instituição.

    Os empreendedores brasileiros são diferentes dos de outros países?
    A Ashoka do Brasil é uma das maiores no mundo. O país é muito criativo, e por isso não estou surpreso que haja tantos empreendedores sociais aí. Existe um grande desafio e um time muito criativo que sabe como trabalhar junto. Essa é uma grande fórmula.